Acompanhe a vida do Museu ao longo de quase cem anos da sua existência.
A primeira Exposição Universal, realizada no cenário londrino de Hyde Park, em 1851, foi um acontecimento de tal modo inovador que muitos o consideraram como o alvorecer de uma nova era. Teve, sem dúvida, consequências marcantes pelo que diz respeito à produção industrial, ao comércio internacional e ao turismo, do mesmo passo que produziu resultados decisivos no tocante à museologia e ao ensino artísticos.
Este grande certame veio evidenciar que a cotação de um qualquer produto manufaturado não resulta unicamente do seu valor de uso, mas é igualmente definida em função de critérios de gosto.
No sentido de contrariar a primazia unanimemente atribuída à França em matéria de bom gosto, os ingleses criam uma instituição destinada a alargar a influência da arte e da ciência sobre a indústria, a que acabará por ser dado o nome de Victoria and Albert Museum . Este inovador estabelecimento articulava-se intimamente com uma escola de desenho, centro de uma rede de escolas locais, visando contribuir para o depuramento do gosto dos agentes mais diretamente envolvidos na produção industrial.

Definição de uma identidade
1. António Augusto Gonçalves, fundador do Museu Machado de Castro.
As exposições universais subsequentes, revelam uma melhoria apreciável da produção industrial britânica em matéria de gosto. Da inquietude e interesse suscitados por este facto nasce um movimento de que resultará a disseminação por toda a Europa de um novo subtipo de museu artístico, o chamado museu de arte industrial, com escolas de desenho anexas.
A primeira manifestação concreta desta vaga em Portugal é a abertura, em 1878, da Escola Livre das Artes do Desenho, em Coimbra, devida à iniciativa do professor de desenho António Augusto Gonçalves (1848- 1932). Este estabelecimento – em parte responsável pelo ressurgimento artístico registado na cidade do Mondego no meio século seguinte, que se fará sentir muito para além do aro citadino – após ter posto de pé a Exposição de Manufaturas do Distrito de Coimbra , em 1884, procura, sem sucesso, obter instalações mais amplas que permitissem dar início ao museu previsto nos seus estatutos. Tal desígnio viria, no entanto, a ser alcançado por A. A. Gonçalves em 1887, com a criação de um efémero Museu Municipal de Arte e Indústrias, que a vereação seguinte, entravando o seu desenvolvimento, condena ao fracasso. Conservador do Museu do Instituto de Coimbra desde 1895, Mestre Gonçalves leva a cabo a transformação deste estabelecimento, solenemente reaberto ao público a 26 de abril de 1896. Mais do que um simples arranjo de instalações, é a própria natureza e vocação do Museu que vêm a ser remodeladas. Às lápides, esculturas e espécies arqueológicas juntavam-se agora as coleções de faiança, azulejaria, serralharia artística, etc., assumindo o Museu a clara função social de «influenciar a educação e o trabalho».
O decreto com força de lei de 26 de maio de 1911, por que, sob o regime republicano, passam a reger-se os serviços de museus e de proteção do património, bem como o ensino de Belas-Artes, não foi promulgado sem que, antes, António Augusto Gonçalves procedesse à sua revisão e nele introduzisse diversas alterações importantes. É este o diploma que cria, em Coimbra, o Museu Machado de Castro, num artigo redigido por aquele que viria a ser o seu primeiro diretor. Nele se diz que o novo estabelecimento é «organizado principalmente no intuito de oferecer ao estudo público coleções e exemplares da evolução da história do trabalho nacional; e que será ampliado com uma secção de artefactos modernos destinada à educação do gosto público e à aprendizagem das classes operárias». Prescreve-se ainda no citado artigo que o Museu da Sé, o primeiro museu de arte sacra aberto em Portugal, em 1884, pela eminentíssima figura do episcopado português que foi D. Manuel Correia de Bastos Pina, e que a Lei de Separação do Estado das Igrejas nacionalizara um mês antes, passaria a constituir uma secção do Museu Machado de Castro, mantendo-se embora sob a direção do seu instituidor.
Até ao fim, A. Gonçalves sempre reivindicou a classificação de museu de arte industrial, recusando para o estabelecimento que dirigia a mera condição de repositório de raridades artísticas. Do primado da função educativa, que preside a toda a sua atuação, nasce, por contraposição a um modelo elitista, a conceção do museu como escola «para artistas, antiquários e estudiosos de todas as categorias». E, como autorizadamente afirma João Couto, «foi, sem dúvida, o Museu de Coimbra o modelo pelo qual vestiram os Museus provinciais que ao tempo se constituíram».
A 24 de novembro de 1929, é empossado, nas funções de diretor do Museu, Virgílio Correia (1888-1944), desde 1921 professor de Estética e História da Arte da Universidade de Coimbra. Ao contrário do seu predecessor, acolhe sem dificuldade o conceito de museu regional pelo que diz respeito à natureza das coleções. Já seria mais problemático afirmar-se a aceitação do conceito de museu regional se entendido na aceção de categoria intermédia entre museus nacionais (sedeados em Lisboa) e locais.
Virgílio Correia acreditava que o Museu não poderia deixar de ver reconhecida a sua primazia, por via da excelência de uma das suas coleções: «Conto mesmo que um dia – talvez não muito distante, – o Museu de Coimbra seja considerado, oficialmente, o Museu Nacional de Escultura».
É, pois, com base nessa conceção que o segundo diretor desenvolve a sua ação à frente do Museu: assumindo que este é «estruturalmente artístico», não deixa de contemplar as restantes valências complementares.
E assim é que, logo em 1931, inaugura a Sala de Documentação Gráfica Citadina, onde reúne desenhos, plantas, fotografias e outros registos da urbe de antanho, acrescidos de alguns retratos.
Por outro lado, alargará a secção arqueológica do Museu, por via não apenas da criação duma coleção pré-histórica que ele tinha a intenção de desenvolver mas, sobretudo, em resultado das sucessivas campanhas de escavações empreendidas em Conimbriga a partir de 1930, cujo espólio é aqui recolhido. Finalmente, era sua intenção criar uma secção etnográfica, «que complet[ass]e harmoniosamente o conjunto do Museu», a cuja instalação destinava parte do edifício anexo ao paço episcopal ocupado pelo Instituto de Coimbra. Virgílio Correia ainda reuniu um núcleo inicial de arte popular, integrando umas duas centenas de espécies, cerâmicas na sua grande maioria, de que o seu sucessor faria entrega ao Instituto de Coimbra ainda durante o primeiro ano do seu mandato, sendo daí transferido, em 1953, para a Secção Etnográfica da Câmara Municipal de Coimbra.
Após a realização de obras pontuais, iniciadas em 1933, em 31 de maio de 1935, o ministro Duarte Pacheco nomeia uma comissão, constituída pelo doutor Virgílio Correia e pelos arquitetos Baltasar de Castro e Luís Benavente, a fim de estudar o plano de conjunto das obras a realizar no Museu. É, assim, delineado um plano global de intervenção nos edifícios que não deixará um só recanto do Museu intocado e cuja execução, com os necessários ajustamentos pontuais, se prolonga por dois decénios, alcançando ainda o começo da atuação do terceiro diretor. Dificilmente uma intervenção desta envergadura deixaria de ter incidências importantes na organização museográfica adotada desde a abertura do estabelecimento. Retiram-se às fachadas as marcas mais óbvias da reconversão do edifício à função museal, quer removendo os painéis de azulejos que as guarneciam, quer obturando as aberturas praticadas por Gonçalves a fim de dotar as salas de luz abundante, o que irá implicar a instalação de luz artificial. Por outro lado, prevê-se que a coleção de ourivesaria deixe S. João de Almedina, acabando por ocupar cinco salas do andar nobre da ala sul do antigo paço.
